Leitor
Café beira rio 2

Por Manuela Brandão Paes

E minha lembrança mais remota de Jacobina é de uma imensa escuridão. Escuridão que contrasta com tanta luz que provém de seu povo, com o brilho de seu ouro, com a claridade que surge em cada casa, milimetricamente, disposta ao redor de serras que mais parecem um “berço natural” a proteger seus filhos.

Escuridão sim!

Escuridão do mais profundo fundo do guarda-roupa de minha avó Diva. A época era a primeira metade da década de 80. Ali, escondida e silente, estava uma menininha temerosa de ser descoberta, cujo acontecimento ensejaria seu retorno para Salvador, cidade em que seu pai terminava a faculdade de medicina. A partir de então tenho guardadas todas as minhas memórias em Jacobina, memórias de Jacobina: minha casa, minha identidade!!!

Acredito que as histórias que vivi são muito parecidas com as que viveram os “Joãos”, “Marias”, “Antônios”, “Josés”, e outras tantas “Manuelas”. Histórias de amor por nossa casa. Histórias que contam parte do que vivemos, portanto, parte do que somos. Mas aquela menininha tem muito para contar porque ela viveu períodos de muitos valores e aprendizados, mais do que, talvez, e muito lamentavelmente, venha o meu filho a viver!

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“A recordação vai estar com ela (sic) aonde for;

A recordação vai estar pra sempre aonde eu for” (Kaoma) e....

 “Isso é bom, bom, bom;

Isso é legal, legal;

está fervendo, fervendo;

isso é bonito, bonito” (Ui pitchi pitchi).

“Chorando se foi” de Kaoma e “Ui pitchi pitchi” eram uns dos “hits” do momento, e lá estava aquela menininha, ansiosa no comício de seu avô e “Tio Vavá” na Serrinha, acompanhando, de baixo do palco, atenciosamente todos os discursos. Ahhh quanta vontade tinha ela de que parassem de falar logo “tanta coisa sem sentido” para poder dançar lambada, eram tantos dias prévios ensaiando!!!! Mas não parava por aí. Ela viu a inauguração do Hospital Municipal do Junco, ali brincando com uma dezena de crianças, depois o viria funcionar! É isso não é? Enquanto essa pequena viu a abertura de um hospital vimos o triste fechamento de outro! Assim sem explicação! Em realidade até ousam ensaiar uma explicação mas ela é tão irracional até para os mais irracionais dos homens! Irracional é o termo. Segundo um dicionário qualquer irracional é o que “não pertence ao domínio da razão”, “nem provém do raciocínio”, “que contraria a clareza mental, o bom senso ou o julgamento preclaro”. Escolher um hospital como alvo de toda vindita política sendo ciente de que isso afetará diretamente os bens jurídicos mais importantes das pessoas – vida e saúde – ademais de desempregar diversos pais e mães de família é ato moralmente repreensível e inaceitável, conduta enferma. Vejam aí a falta que um hospital faz?

Não saberia estabelecer uma ordem cronológica, todavia, estava ela na companhia de seu avô Manoel e “Goi” olhando as obras da Barragem do Itapicuruzinho. Ia ao Mutirão “ver” o andamento da construção das casas, acompanhava seu avô em eventos no Ginásio de Esportes, domingo (creio) pela manhã no Tiro de Guerra, desfilava também no “7 de setembro”, fardada!!! Tinha importantes compromissos ao lado de seus amigos que junto a ela viam e comentavam as peripécias da “Esquadrilha da Fumaça”, “ajudava” a divulgar seu Município e suas riquezas (alho, doce da Caatinga do Moura, artesanatos feitos de pedras naturais, etc.) na “Feira do Interior” em Salvador. Não perdia uma Micareta ao lado de seu avô, ainda que muito sono tivesse, mas queria ver a “Banda Reflexus” ou “Asa de Águia” tocar. Enfim, ela tem um “sem-fim” de lembranças para contar, de uma época cheia de acontecimentos, mas deixemos toda essa nostalgia para outra oportunidade. O fato é que a vida lhe permitia unir duas coisas que ela tanto amava: seu avô e a traquinagem pertinente a toda criança. Digo “amava” porque esta última se foi com a chegada da maturidade.

Diria eu que naqueles idos tempos a política começava a surgir na minha vida, digo melhor, naquela época, ainda que não me desse conta nascia em mim uma consciência política, verdadeira certeza da “função social” inerente a cada cidadão e de que é preciso descobri-la o quanto antes e exercê-la para o bem de todos.

A diferença de mim, aquela menininha via homens serem conduzidos ou indicados ao poder PELO POVO. Alcançavam esse “status” por mérito próprio, após muitos anos de serviços prestados e reconhecidos à nossa sociedade. Pessoas nobres, ainda que desprovidos de qualquer título de nobreza, poderia citar Adelço Mota, Ângelo Brandão, Carlos Daltro, Florisvaldo Barberino, Francisco Rocha Pires, Fernando Daltro, Flávio Mesquita, Gilberto Miranda, José Prado Alves, Lenivalter Dias, Leopoldo Passos, Manoel Ignácio, Marcos Marcelino, Orlando Oliveira e Valdice Castro (1. Optei por mencioná-los em ordem alfabética. 2. Excluí os pronomes de tratamento por julgar que a grandiosidade de cada um deles torna dispensável seu uso). Em total paradoxo com o passado o que vemos atualmente é a prática corrente da utilização de uma “figura de linguagem” denominada “eufemismo”. Explico. Para não dizer “EU quero ser candidato” o suposto candidato, de forma suave e polida, diz “estou colocando meu nome à disposição”. Bom, que posso dizer? Os tempos mudaram né? Nosso Município conheceu tantos agentes públicos que exerceram seus cargos como múnus público como de fato deve ser e não como profissão. Tempos que não voltam!

Mas, protagonizando todo o furor da política, movimentando seus inúmeros e bem conscientes adeptos, estavam “Jacus” e “Carcarás”. Seu grupo perdia? A única certeza que se tinha é que você iria amargar e amargurar feito um “jacu baleado” ou, sei lá, um “carcará destroçado” durante quatro anos. Perdíamos sim! Mas “caíamos” com hombridade! Ahhh tempos hodiernos que “em nome da governabilidade e do desenvolvimento do Município” (???) vê seus “grandes homens” (Estudos indicam que os brasileiros estão ficando mais altos. “A geração atual é maior do que a dos pais e avós”) “mudar de lado”, “capar o gato”, “vazar” tão logo se comprove a derrocada do seu grupo e do seu candidato. Não se espera muito mais, vai na “cara dura mesmo”, ao final da apuração dos votos, ou seja, no mesmo dia das eleições cada um já segue para sua nova colocação, junto com suas novas ideologias e afinidades, obviamente levando consigo a pecha que lhe corresponde! Ahhh como ficamos mais rápidos.

Não era comum a utilização da “máquina pública” a serviço de poucos. O poder público atendia sim a muitos. Em Jacobina não se via fechar hospital (e qual é mesmo a explicação?). Emissoras de radio não precisavam ser contratadas para divulgar obras, porque se construídas elas estavam ali e o cidadão via sem que precisasse alguém ser pago para falar. Tampouco era necessário “ler” para crer porque se via. Devemos entender que a suficiência de um governo deve ser aferida pelo grau de satisfação de seu povo e não por “pesquisas”, opiniões custosas aos cofres públicos ou simples outdoors chamativos espalhados pelas ruas e avenidas.

Às vezes eu me pergunto: como chegamos a isso? Onde nos perdemos? Onde estávamos que não vimos nossa cidade ir pouco a pouco perdendo a pujança que tinha, perdendo o posto de líder de toda uma região? Não sei responder! Sei que a cada período eleitoral que se avizinha surge a esperança de um novo “Salvador” para nossa cidade e nós, descrentes que andamos de todas as instituições do nosso país “embarcamos” nessa ideia de que agora será diferente. Não, não será assim! Infelizmente o caminho não é tão fácil! Ou passamos a nos movimentar mais como cidadãos, cobrando resultados, não tendo vergonha de debater sobre o que anda mal, resumindo... ou saímos de “cima do muro” e da nossa zona de conforto e assumimos a parte de responsabilidade social que nos cabe ou nos contentamos com o famoso parágrafo único do artigo 1° da Constituição Federal que diz que “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”. Devo dizer, porém, que todo esse poder é basicamente exercido em um único dia somente a cada quatro anos.

Nessas eleições façamos diferente! Vamos conhecer a história de vida de cada pleiteante a representante popular; vamos buscar conhecer o que o qualifica para tal função, mas acima de tudo vamos fomentar ainda mais os debates de ideias e sobretudo de propostas (alguns já vêm sendo promovidos) para o nosso Município. E se bem você leitor possa, equivocadamente, pensar que é minimamente afetado pela “política”, o mesmo não podemos dizer de milhares de irmãos jacobinenses que dependem diretamente do quanto provido pelo Poder Público na esfera da saúde, educação, assistência social, etc. Lutemos por eles!

O certo é que Jacobina sempre será uma cidade de muitas possibilidades seja na prestação de serviços, seja na agricultura, pecuária, exploração de minérios, geração de energia eólica e turismo ainda tão incipiente todavia com muito potencial. Possui um povo de amabilidade e hospitalidade inigualáveis, portanto, caros amigos retomemos o bom caminho da nossa história para que as crianças de hoje tenham, como eu, um lindo passado para contar!!!!!

Manuela Brandão – uma jacobinense!